Lembro-me tão bem, quando chegava à escola, estavas sentado no banco do fundo, com o telemóvel nas mãos e o olhar fixo nalguma coisa que não me atingia. Eu sentava-ma a uns bancos de ti, agarrava também no telemóvel para dar a entender que tinha alguma coisa em que pensar, que me ocupasse o tempo àquelas horas da manhã, quando apenas nós lá estávamos. Desviava o olhar, e estavas exactamente na mesma: sentado, com as duas mãos a agarrar no telemóvel, depois passavas a mão no cabelo como se estivesse despenteado, mas acredita estava perfeito. Eras a única pessoa ali, quer dizer, apenas tu e eu estávamos ali tão cedo, não sei porque, mas tinha-se tornado numa rotina ver-te todos os dias. Passou-se muito tempo, muito mesmo, achava que eras algo inalcançável, mas que todos os dias me fazia sonhar. Eras das poucas pessoas para quem eu olhava todos os dias, e por mais que não desses por isso, eu reparei sempre em ti. Agora não te sentas no mesmo banco, não agarras o telemóvel com as duas mãos, mas continuas a passar a mão pelo cabelo como se estivesse despenteado, mas que continua perfeito. Não te sentas no mesmo banco, mas continuo a reparar em ti, como continuas lindo, como continuas a olhar nessa direcção que não me atinge, mas foi agora que realmente percebi que nunca irá atingir. Também já não me sento no mesmo banco, já não chego tão cedo, já não agarro no telemóvel como se tivesse algo em que pensar, mas continuo a desviar o olhar que te atinge, já não baixo a cabeça e sorrio quando olhas para mim, mas continuo sempre, a reparar em ti, como se parte da nossa rotina se mantivesse após tanto tempo.

1 comentário:
Amei :')
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