20.10.13

Ela tinha uma máquina de escrever, onde escrevia os episódios maus da vida dela. Seguidamente, pegava na folha, num isqueiro e queimava-os, para que não voltassem, até que uma noite, o fogo se vingou.
Deviam ser nove da noite, ouvia-se o barulho ritmado da chuva a cair em oposição ao silêncio proveniente do quarto, tinha tudo para ser um dia normal. Começou a sentir o corpo quente, um reboliço na mente, um aperto no coração, não conseguia respirar, cada pulsação era mais dolorosa que a anterior e cada partícula de ar inspirado queimava-lhe a garganta. Apagou-se.
Acordou em cima da cama, ninguém dera por nada como era normal, mas aqueles pensamentos, aquelas memórias que ela havia escrito e queimado, assegurando-se de que nunca voltariam, estavam ali, no seu leito, ao lado da cama, a vê-la não conseguir adormecer.
Passavam todos pelos seus olhos, revivia-os. É a dor. A dor era tão forte por ter de os reviver, por se aperceber do quão inútil foi para não os poder contrariar, de como os poderia ter impedido.
Não podia contrariar o seu destino, o destino de mal-feitora, a culpa que a acompanharia para o resto da vida, e ninguém, ninguém era capaz de perceber..
Entre lágrimas e espasmos, adormeceu.

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