«quando não tiveres mais nada para dar aqui, terás em outro lado qualquer, mesmo no buraco mais sombrio do submundo.»
Sabes, às vezes ainda tenho esperanças de que um dia, no buraco mais sombrio do submundo possamos ser aquilo que, nesta vida, não deixaste ser. Não vou negar, amo-te como provavelmente nunca amei ninguém (e sente-te lisonjeado porque nunca o disse tão abertamente, mas estou farta de metáforas, afinal foram elas que arruinaram tudo), sinto falta das nossas conversas, a sério que sinto, sinto falta dos teus olhos quentes perante as tuas mãos frias, sinto falta do teu cheiro, dos teus beijos na testa, dos nossos cafés, dos teus abraços, sinto falta da tua voz grave. Existe uma imensidão de coisas que para ti podem ser banais, mas que para mim valem muito. Às vezes dou por mim, a vasculhar conversas antigas como se em cada uma delas tivesse deixado uma parte de mim que esperava recuperar na conversa seguinte.
Neste momento, os bares bohemios fecharam, os velhos já não escrevem poemas de amor, as ruas sombrias iluminaram-se, o tabaco foi substituído por pastilhas de mentol, as chávenas de café estão vazias, os dias estão quentes e os bancos de jardim desocupados; e todas aquelas partes de mim, que cada dia deixava contigo, andam por aí, a pairar, à tua espera, à espero do antes para contrariar o agora, à espera do insano para contrariar a monotonia, à espera do perpétuo para contrariar a humanidade.
Amo-te, darling.
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